terça-feira, 20 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Pedaços de uma Africa minha. (5)

Enquanto contavam a sua grande aventura,
iam percebendo que a iarinha não estava zangada.
O popotaminho tinha a cabeça junto ao seu peito
(achava engraçado o tic-toc-tic-toc do coração dela)
e o cactinho estava aninhado nos seus braços, muito quietinho.
- Ela tá a fazer-me festinhas e uma pessoa zangada não faz festinhas
na cabeça de ninguém! - segredou o cactinho ao amigo,
que estava de olhos fechados e de dedo na boca,
e que de vez em quando abanava a caudinha branca.
Arranjar dinheiro...
Não imaginavam de quanto iriam precisar,
mas sabiam que tinham pouco, 40.meticais para a ida,
mais 40 meticais para o regresso...
Sobravam 120 meticais...
Era mesmo muito pouco para quem
tinha que comprar tinta e pagar a pintura.
Não havia muitas hipóteses:
pedir á porta do mercado não lhes agradava
(o que as pessoas pensariam deles dois,
assim gordinhos e de roupas novas e lavadas, a pedirem esmola?
de certeza que achariam que estavam a brincar
ou que eram preguiçosos!).
Fazerem um trabalho qualquer era a solução.
Mas o queeeee?!?...
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Pedaços de uma Africa minha. (4)

Para eles a baixa da cidade era um lugar desconhecido.
Ali na berma da estrada o passeio parecia pequenino para
tantas pessoas que corriam de um lado para o outro,
que gesticulavam, que arrastavam caixotes monstruosos,
que vendiam fruta e castanhas .
Também as estradas pareciam estreitinhas, a abarrotarem
de tantos carros e carrinhos com campainhas que os vendedores
de sorvetes tocavam energicamente.
Andaram uns metros (sempre muito juntos para não se
perderem um do outro) e depois sentaram-se nos degraus de
uma loja abandonada.
Decidiram organizar-se e “planificar” (estavam habituados a ver
os crescidos a planificar...
por exemplo, sempre que as mães deles iam ao supermercado,
planificavam as compras num caderno,
ou mesmo a iara quando queria mandar algo para o eddie
planificava numa lista as coisas que tinha que fazer ).
Com um bocadinho de carvão, desenharam no chão duas colunas
e assim nascia a primeira planificação das suas vidas:
“o que queremos” e “como vamos conseguir o que queremos”.
A parte “o que queremos” foi definida sem nenhuma discussão
Anotaram na coluna da esquerda:
a) arranjar dinheiro,
b) comprar tintas ( tintas sim, não era só a azulinha...
o cactinho convencera o popotaminho de que ele
ficaria “monótono” e era pouco fashion ficar só de uma cor,
porque era muito grande... que tinha que usar outra cor...
e o popotaminho, embora não soubesse lá muito bem
o que significava “monótono”,
concordou... achou que ficar “monótono” não devia ser boa coisa ),
c) pintar-se,
d) e, por ultimo, regressar a casa.
Os problemas começaram na coluna “como vamos conseguir
o que queremos”...
Continua...
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Pedaços de uma Africa minha. (3)

A iara queria saber tudo,
mas não era por curiosidade nem por desconfiar dos seus meninos:
era porque sentia uma alegria enorme ao perceber a felicidade com
que eles se preparavam para a viagem.
Os dois estavam ansiosos por ver o amigo,
um amigo que ainda não conheciam.
Do eddie só sabiam o que ela havia contado.
Aquela vontade de quererem estar junto dele,
o tentarem fazer tudo para ele ficar feliz,
a preocupação com a escolha dos presentinhos,
o terem-se pintado, tudo a encantava.
E não, a iara nunca se zangaria com eles por causa desta entrega total,
porque ela é uma pessoa que acredita na entrega total,
mas tinha que se preocupar com algumas coisas horrivelmente praticas:
por exemplo, se já tinham todos os documentos prontos, com fotografias e tudo,
como explicar as autoridades de cá e de lá os corpos agora azuis?
E a tinta... A tinta poderia fazer-lhes mal...
Por isso ralhava, só por isso.
Mas eles não se calavam.
A tarde na cidade tinha que ser toda contada (o popotaminho dizia mesmo:
“ toda contadinha como deve ser”).
Afinal, para além de não quererem a iara triste,
tinham orgulho em mostrar-lhe como fora a sua primeira viagem independente,
sem papás nem vóvós nem ninguém a controlar!
Estavam aninhadinhos no colo dela, tapados com um edredon fofo e quente,
e assim ficaram por muito mais tempo...