quarta-feira, 14 de julho de 2010

Pedaços de uma Africa minha. (5)


Enquanto contavam a sua grande aventura,

iam percebendo que a iarinha não estava zangada.

O popotaminho tinha a cabeça junto ao seu peito

(achava engraçado o tic-toc-tic-toc do coração dela)

e o cactinho estava aninhado nos seus braços, muito quietinho.

- Ela tá a fazer-me festinhas e uma pessoa zangada não faz festinhas

na cabeça de ninguém! - segredou o cactinho ao amigo,

que estava de olhos fechados e de dedo na boca,

e que de vez em quando abanava a caudinha branca.

Arranjar dinheiro...

Não imaginavam de quanto iriam precisar,

mas sabiam que tinham pouco, 40.meticais para a ida,

mais 40 meticais para o regresso...

Sobravam 120 meticais...

Era mesmo muito pouco para quem

tinha que comprar tinta e pagar a pintura.

Não havia muitas hipóteses:

pedir á porta do mercado não lhes agradava

(o que as pessoas pensariam deles dois,

assim gordinhos e de roupas novas e lavadas, a pedirem esmola?

de certeza que achariam que estavam a brincar

ou que eram preguiçosos!).

Fazerem um trabalho qualquer era a solução.

Mas o queeeee?!?...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Pedaços de uma Africa minha. (4)


Para eles a baixa da cidade era um lugar desconhecido.

Ali na berma da estrada o passeio parecia pequenino para

tantas pessoas que corriam de um lado para o outro,

que gesticulavam, que arrastavam caixotes monstruosos,

que vendiam fruta e castanhas .

Também as estradas pareciam estreitinhas, a abarrotarem

de tantos carros e carrinhos com campainhas que os vendedores

de sorvetes tocavam energicamente.

Andaram uns metros (sempre muito juntos para não se

perderem um do outro) e depois sentaram-se nos degraus de

uma loja abandonada.

Decidiram organizar-se e “planificar” (estavam habituados a ver

os crescidos a planificar...

por exemplo, sempre que as mães deles iam ao supermercado,

planificavam as compras num caderno,

ou mesmo a iara quando queria mandar algo para o eddie

planificava numa lista as coisas que tinha que fazer ).

Com um bocadinho de carvão, desenharam no chão duas colunas

e assim nascia a primeira planificação das suas vidas:

“o que queremos” e “como vamos conseguir o que queremos”.

A parte “o que queremos” foi definida sem nenhuma discussão

Anotaram na coluna da esquerda:

a) arranjar dinheiro,

b) comprar tintas ( tintas sim, não era só a azulinha...

o cactinho convencera o popotaminho de que ele

ficaria “monótono” e era pouco fashion ficar só de uma cor,

porque era muito grande... que tinha que usar outra cor...

e o popotaminho, embora não soubesse lá muito bem

o que significava “monótono”,

concordou... achou que ficar “monótono” não devia ser boa coisa ),

c) pintar-se,

d) e, por ultimo, regressar a casa.

Os problemas começaram na coluna “como vamos conseguir

o que queremos”...

Continua...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Pedaços de uma Africa minha. (3)


A iara queria saber tudo,

mas não era por curiosidade nem por desconfiar dos seus meninos:

era porque sentia uma alegria enorme ao perceber a felicidade com

que eles se preparavam para a viagem.

Os dois estavam ansiosos por ver o amigo,

um amigo que ainda não conheciam.

Do eddie só sabiam o que ela havia contado.

Aquela vontade de quererem estar junto dele,

o tentarem fazer tudo para ele ficar feliz,

a preocupação com a escolha dos presentinhos,

o terem-se pintado, tudo a encantava.

E não, a iara nunca se zangaria com eles por causa desta entrega total,

porque ela é uma pessoa que acredita na entrega total,

mas tinha que se preocupar com algumas coisas horrivelmente praticas:

por exemplo, se já tinham todos os documentos prontos, com fotografias e tudo,

como explicar as autoridades de cá e de lá os corpos agora azuis?

E a tinta... A tinta poderia fazer-lhes mal...

Por isso ralhava, só por isso.

Mas eles não se calavam.

A tarde na cidade tinha que ser toda contada (o popotaminho dizia mesmo:

“ toda contadinha como deve ser”).

Afinal, para além de não quererem a iara triste,

tinham orgulho em mostrar-lhe como fora a sua primeira viagem independente,

sem papás nem vóvós nem ninguém a controlar!

Estavam aninhadinhos no colo dela, tapados com um edredon fofo e quente,

e assim ficaram por muito mais tempo...